Em casa. Longe de tudo e tão perto, dos outros e de mim.

Em casa. Longe de tudo e tão perto, dos outros e de mim.

Sentada em frente ao computador, o ecrã cheio de rostos que amo, que queria muito abraçar. As palavras de cada um cheias de emoção, de pensamentos, de momentos que se vivem. Neste tempo novo, em que tudo muda, adapto-me a novas tecnologias, e a este abraço à distância. Os dias agora passam em frente ao computador, e ao telemóvel. As conversas pessoais passam a vídeos pelo WhatsApp. Os treinos, a um telemóvel que vai mudando de posição para acompanhar os movimentos do outro lado. As formações, a uma ligação pela zoom. As reuniões, nas casas de cada um pelo ecrã, com filhos e gatos que entram no visor. E os dias passam rápidos, cheios de conversas e de tarefas.

Pensei que ia parar, arrumar armários, ler livros, estudar para os dois cursos que continuo a fazer. E quando os dias terminam e me deixo adormecer no sofá, a companhia da natureza é a da ecrã da televisão, que está ligada todos os dias nas paisagens. E nos vídeos e fotos que vou publicando para me lembrar do mar. Os vídeos da minha sobrinha, fechada numa casa numa zona isolada junto ao mar.

As rotinas antigas, vão mudando. Sem os treinos com o Marco Moura às 7h, as aulas cedo na Faculdade, os treinos do início da manhã, a hora de acordar das 6h30 resvala para as 9h, e a de adormecer passa também para mais tarde. Na cozinha, o meu coelho passeia pedindo guloseimas, na hora das refeições. Só me apetece sopa de miso com legumes e ovos, chá e chocolate preto. Passadas duas semanas, começo a pensar que tenho de começar a mudar de alimentação. A vontade de voltar à escrita, aumenta.

O trabalho mudou, mas não parou. Um novo desafio surge com o desenvolvimento do GO, ginásio online, para o qual fui convidada a fazer parte. E a excitação de um novo projeto, a velocidade alucinante de tudo o que acontece para que este funcione, o conjugar com as saídas raras à rua para compras, mudam os dias. As reuniões, as conversas com a equipa individual por vídeo, aumentam. No chat, vou falando com amigos, tomando café no sofá acompanhada à distância. Passo os dias em roupa de treino, entre as aulas que dou e as aulas que faço. Dou muitas vezes comigo a tremer de frio em frente ao computador, e depois lembro ir buscar um casaco. O tempo que passo debaixo da água quente do duche aumenta, pelo frio, e pela falta da piscina que começa a fazer-se notar.

Na única saída em que tive de ir buscar material ao escritório, o espaço vazio, desolado deu-me a primeira sensação de medo de morte. Algo com que nunca contactei, que sinto no ar. A estranheza da sensação invade tudo no meu corpo. Levar compras à minha mãe, e pousar os sacos longe dela fora da porta de entrada, e chego a casa arrasada. É o primeiro dia que choro no sofá.

Lá fora, o planeta regenera-se. A economia abala. Famílias aproximam-se e são obrigadas a voltarem a conhecer-se. Os muitos pontos menos bons, contrastam também com o muito de bom que vai surgindo. Esta situação leva muitas pessoas a uma maior consciência social, de ajuda do outro. A um maior cuidado com o planeta. E um maior olhar para dentro, e cuidado consigo. Não sei o que nos espera. Vivo um momento de cada vez. Tenho uma vontade enorme de abraçar todos.

Espero que o Amor ganhe mais terreno, mais do que tudo o que nos desafia. Cuidem-se. Amem. Respirem. Vemo-nos de novo no final do túnel. Abraço.

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